A última valsa de Luka: como Modrić deixou a Croácia órfã

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Aos 94 minutos, Gonçalo Ramos não abateu apenas a Croácia: ele fechou a porta de uma era inteira. Luka Modrić, o homem que durante quinze anos foi o coração, o cérebro e a alma dos xadrezes, estava no gramado do BMO Field, com as mãos apoiadas nos joelhos. Naquele momento, o placar de 2 a 1 para Portugal era secundário. O número principal da noite era o último: 40 anos e 297 dias. 178 jogos pela seleção. E nenhuma chance de reescrever esse final.

Não foi apenas uma partida dos 16 avos de final. Foram os créditos finais de um filme que assistíamos desde 2006. Foi ali, vinte anos atrás, que um jovem meia do Dínamo de Zagreb entrou em campo pela primeira vez, num amistoso contra a Argentina, sem sequer imaginar que dava início ao romance mais longo e fiel da história do futebol croata. Nas imagens amareladas daquele jogo aparece um rapaz magro, de cabelo curto, jogando contra a Albiceleste com tanta leveza e ousadia como se não fosse a primeira partida pela seleção, mas pelo menos a centésima.

Quem poderia imaginar, naquela época, que aquele meio-campista franzino se tornaria o homem que tiraria toda a Croácia do grupo dos simplesmente competentes e a levaria para a elite do futebol mundial.

Drama em Toronto: 20 minutos de acréscimo e um coração partido

A partida, que começou como um duelo cauteloso entre dois gênios de 40 anos, ao apito final tinha virado um thriller com elementos de crueldade. A Croácia abriu o placar aos 53 minutos: quem mais poderia ser, senão Ivan Perišić, eterno escudeiro de Modrić, completando o cruzamento de Stanišić.

Ligações assim vão entrar com certeza em todas as retrospectivas de despedida que já devem estar sendo montadas em algum lugar de Zagreb, ao som de uma música balcânica discreta. Por um instante pareceu que o roteiro seria de novo croata: aqueles mesmos xadrezes que arrancavam vitórias na prorrogação e nos pênaltis voltavam a tirar do caminho todos os favoritos.

Mas o destino tinha outros planos. O pênalti sofrido por Renato Veiga e convertido com frieza por Cristiano Ronaldo aos 68 minutos foi apenas o prelúdio do inferno.

Depois começou o caos do VAR: três gols anulados, quase meia hora de acréscimos, os nervos esticados ao limite.

E aos 90+4 minutos Gonçalo Ramos, que tinha entrado no decorrer do jogo, completou o cruzamento rasteiro de Rafael Leão. O estádio explodiu, os jogadores de Portugal correram para comemorar, e os croatas caíram no gramado.

O último gol da Croácia, marcado no fim, foi anulado após revisão: um impedimento milimétrico que não deixou espaço para esperança.

MinutoLancePlacar
53′Perišić completa o cruzamento de Stanišić1-0
68′Cristiano Ronaldo converte o pênalti1-1
90+4′Gonçalo Ramos, assistência de Rafael Leão1-2
Croácia 1 x 2 Portugal, 16 avos de final

O homem que fez a Croácia grande

Mas este texto não é sobre o resultado. É sobre o homem que deixou o campo de cabeça erguida, apesar das lágrimas nos olhos. Luka Modrić encerrou sua trajetória em Copas do Mundo. E isso não é apenas uma linha na estatística: é um momento que faz repensar tudo o que sabíamos sobre esse pequeno país do futebol.

Quando Modrić estreou na Copa em 2006, ele fazia parte de uma equipe que apenas comemorava a classificação para a fase final. A Croácia era uma seleção competente, de camisas quadriculadas reconhecíveis, mas nada além disso. Até 2026, ele a deixou vice-campeã (2018), terceira colocada (2022) e mudou para sempre o DNA dessa equipe.

OS NÚMEROS DE MODRIĆ NA SELEÇÃO
40 anos
e 297 dias na despedida
178 jogos
pela seleção croata
4 Copas
do Mundo, de 2006 a 2026
2018 e 2022
vice-campeão e 3º lugar

Ele não era apenas um armador: era um encantador. Seus passes de trivela, sua capacidade de parar com a bola escaneando o campo, sua disposição de carregar a equipe nas prorrogações quando as pernas já não obedeciam, viraram símbolo do espírito croata. Num país com população menor que a de São Paulo, um único homem fez de uma nação uma potência do futebol.

Agora acabou. Não no pódio, não sob a explosão de confetes: nos 16 avos de final, numa partida em que o VAR matou sem piedade a última esperança.

Dois titãs, uma última partida

modric

Essa partida teve ainda outro contexto histórico que não dá para ignorar. Pela primeira vez em um mata-mata de Copa do Mundo, dois jogadores de linha com mais de 40 anos se enfrentaram em campo. Cristiano Ronaldo, 41 anos e 148 dias, contra Luka Modrić, 40 anos e 297 dias. Dois homens cujas carreiras se cruzaram no Real Madrid, cujos destinos estiveram ligados por um fio invisível de grandes conquistas, se encontraram em Toronto.

Ronaldo saiu de campo como vencedor. Converteu o pênalti, gritou de novo o seu famoso Siuuu e se prepara para a batalha contra a Espanha nas oitavas de final, em 7 de julho.

Já há cotações das casas de apostas. Na Stake dá para apostar na classificação de Portugal com uma cotação nada má de 2.65. Ainda que, na minha opinião, seja um dos jogos mais difíceis de prever. Eu apostaria no empate no tempo normal e, depois, que vença quem tiver mais sorte. Ronaldo com certeza não vai ficar para a prorrogação, o que, por estranho que pareça, dá mais chances aos portugueses.

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O conto de Cristiano continua, mesmo que num papel que lembra cada vez mais uma participação especial no próprio filme. Modrić, por sua vez, saiu derrotado, mas talvez maior. Porque uma coisa é carregar Portugal com sua geração de talentos, e outra bem diferente é transformar a Croácia numa algoz dos grandes do mundo.

O que fica depois de Luka?

A Croácia sem Modrić é uma equipe que vai ter que aprender a andar de novo. Kovačić, Baturina, Sučić são garotos talentosos, mas não são mágicos. O mágico acabou de pendurar a capa no armário. Adiante virão as eliminatórias, novos ciclos, a busca por um novo líder, mas os xadrezes nunca mais serão os mesmos. Modrić não era apenas um titular: era o sentido dessa seleção ao longo de quatro Copas do Mundo.

Quando o árbitro Espen Eskås apitou o fim, os portugueses correram para abraçar o seu veterano, e os jogadores croatas cercaram o deles. Não houve histeria: apenas uma gratidão silenciosa e amarga. Esses abraços, filmados por dezenas de câmeras, vão se espalhar pelas redes sociais e virar o acorde final de incontáveis vídeos de tributo que começarão a aparecer já nesta noite.

Modrić deu a volta no campo devagar, aplaudindo as arquibancadas, e desapareceu no túnel.

Junto com ele foi embora uma era inteira.

  • Dmitri Dovlatov

    Chief Copywriter russo-brasileiro. Há 10 anos escrevo artigos especializados sobre iGaming: análises de cassinos, estratégias de jogos e aspectos legais. Transformo temas complexos em conteúdo claro e persuasivo. Minha paixão é criar textos que definem os padrões do nicho.

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